O debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais divide opiniões no Brasil. De um lado, o setor empresarial alerta sobre um possível impacto negativo na economia, apontando o aumento do custo trabalhista e o risco de crescimento da informalidade. Do outro, dados indicam que jornadas de trabalho excessivas sabotam a própria operação, pois o cansaço crônico abre um ralo no faturamento antes mesmo de virar um processo na Justiça.
Em entrevista exclusiva ao Endosfera, Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford e um dos maiores especialistas em gestão do mundo, desconstrói a ideia de que trabalhar mais horas significa produzir mais.
A biologia de uma jornada de trabalho exaustiva
De acordo com Pfeffer, há uma extensa literatura médica que comprova os danos causados por uma jornada de trabalho excessiva. Os estudos mostram uma relação direta com problemas cardiovasculares e distúrbios graves do sono. O professor ressalta que “horas de trabalho mais longas além de um certo ponto (mais de 40 horas) são prejudiciais à saúde. Existe quase um nível de dose-resposta de pressão alta. Quanto maiores as horas de trabalho, maior a tensão arterial. Além disso, as longas horas de trabalho interferem na capacidade de dormir, e o sono é importante para o funcionamento do sistema imunológico.”
O custo social e a barreira da NR-1
Pfeffer utiliza o conceito de “poluição social” para explicar como o esgotamento gerado dentro das empresas ultrapassa os muros corporativos. O termo descreve o impacto colateral que as práticas de trabalho abusivas causam no tecido social, destruindo a estrutura familiar e a saúde dos indivíduos.
Na visão do professor, o atual modelo permite que as organizações colham o ganho financeiro imediato da sobrecarga e transfiram o custo do adoecimento para a coletividade. O professor compara: “se você me permitir colocar lixo tóxico no ar no ambiente, isso não se torna um problema meu. Torna-se um problema de todos. Se você me permitir engajar em poluição social, então teremos problemas com a família e com doenças. E isso se torna um problema da sociedade, pois ele foi externalizado.”
Em países como o Brasil, que possuem um sistema de saúde universalizado, essa conta é dividida por toda a sociedade. (Mas, aqui, essa dinâmica ganhou um importante freio legal: a recente atualização da NR-1 passou a exigir o mapeamento obrigatório de riscos psicossociais, responsabilizando as empresas pela saúde mental de seus funcionários.)
O nó da produtividade mental
O principal equívoco do mercado, segundo Pfeffer, é tentar medir a eficiência do século XXI com a ultrapassada régua da era agrícola. No trabalho puramente físico, o volume de entrega é proporcional ao tempo gasto na tarefa. Na economia do conhecimento, essa lógica falha porque a mente humana depende do descanso para operar com precisão.
“Se você está arando os campos, quanto mais horas você arar, mais campos serão arados. Mas no mundo moderno, em que a maior parte do trabalho é intelectual (pensar, não fazer), a ideia de que uma jornada de trabalho mais longa equivale a mais resultados simplesmente não está correta”, afirma.
O custo dessa insistência se reflete no aumento de falhas operacionais. Profissionais exaustos cometem erros sucessivos. Na prática, o tempo que a empresa acredita ganhar esticando a jornada é perdido com retrabalho.
Esse desgaste ocorre mesmo em funções de atendimento ou comércio que possuem períodos de ociosidade ao longo do dia. O confinamento físico e a necessidade de atenção permanente impedem o repouso. “As pessoas podem não estar trabalhando, mas ainda estão no trabalho. Mesmo que elas não estejam trabalhando a cada nanossegundo, não estão descansando, não estão em atividades de lazer e não estão com a família”, pontua Pfeffer.
Longa jornada de trabalho é diferente de alta performance
Para o professor, a produtividade não deve ser vista como o esmagamento de um recurso, mas sim como o resultado direto do equilíbrio biológico e psicológico das equipes. Ele faz um paralelo direto com o mercado esportivo profissional:
“Se você fosse o técnico de um time, se preocuparia muito com o descanso dos atletas. Você não trabalharia os caras até o esgotamento para que, quando entrassem em campo, estivessem exaustos. Você se esforçaria para cuidar dessas pessoas para que estivessem no seu melhor na hora do jogo. Afinal, a produtividade é uma função do bem-estar físico e mental.”
A gestão prática do tempo na operação
Diante desse cenário, a adequação das rotinas operacionais atua diretamente nessa arquitetura de alta performance ao mapear o funcionamento das equipes.
O endomarketing entende o funcionamento das equipes e reconhecer que cada indivíduo pode ter seu melhor desempenho em horários diferentes. Carla Petry, sócia e diretora de Operações da Santo de Casa Endomarketing, defende que as organizações devem, sempre que possível, criar momentos de trabalho assíncrono. Essa lógica permite que cada pessoa organize parte da sua rotina de acordo com o seu próprio funcionamento e potencial:
“Enquanto ainda não é possível transformar completamente as regras e modelos do mercado de trabalho, as empresas podem buscar alternativas que promovam mais flexibilidade e bem-estar. Aqui na Santo de Casa, por exemplo, temos equipes trabalhando em horários diferenciados. O objetivo é contribuir para o bem-estar das pessoas, fortalecer o engajamento e garantir a qualidade das entregas que esperamos de nossas equipes.”


